2008/08/02

A histeria da Bolsa

2008/07/29

Crónicas de Bali 1

Finalmente hoje ficou definido o percurso para Bali.
Iniciam-se aqui as Crónicas de Bali sendo que, a primeira dá notícia das espectativas
Boa gente, boa comida, paisagens magnificas, cultura diferente das excursões habituais.
Veremos se corresponde às expectativas.
Apenas um senão. É muito, mas mesmo muito longe.
Em termos prácticos tenho que ir obter o visto na Embaixada da Indonésia para onde telefonei hoje tendo sido atendido por ume senhora amablissima que me explicou tudo.

2008/07/27

Citação

Com a devida vénia ao Ponta e Mola aqui vai uma "máxima" que, não tendo com certeza como alvo muitos dos "senhores" que por aí andam enterrando empresas sobretudo as públicas, se aplica na perfeição:

Malandro que é malandro não estrilha, muda de esquina...

2008/07/19

Nelson Mandela

Não são precisas apresentações nem escritos sobre aquilo que já (quase) toda a gente sabe sobre o Homem (assim mesmo, com H grande).

Aqui fica, com a devida vénia a manuel Queiroz do DN, o mesmo desejo de Joseph Blatter e cito ... espero vê-lo na cerimónia de abertura do campeonato do Mundo de 2010...
Eu também.

A REVERÊNCIA A MADIBA

Manuel Queiroz
jornalista

Os 90 anos que Nelson Mandela festejou ontem em família, em Qunu, onde cresceu, foram celebrados pelos jornais sul- -africanos com a reverência devida a um paitria. Todas as manchetes foram dedicadas ao ex- -presidente da República, ex-combatente do ANC e hoje ícone mundial da paz e da defesa de uma sociedade democrática e multirracial.

O mais interessante dos títulos é o do semanário Mail&Guardian de Joanesburgo: "Mandela @ 90", ou seja, "Mandela aos 90". Com um simples sinal moderno, deu um sentido de futuro a alguém que completa nove décadas de vida, que obviamente já teve mais saúde e que, mesmo assim, é um homem que transmite esperança. O The Star encima a capa com o título "Muitos, muitos parabéns, Tata Mkhulu", um nome que lhe deram os habitantes de Qunu. Nelson nasceu em Mvezo, no Transkei, numa família de linhagem na tribo dos Thembos (de que o seu bisavô foi rei), mas aos dois anos o seu pai mudou-se com a família para o local onde Mandela iria viver e onde hoje existe o museu com o seu nome e onde tem uma casa. Por isso também, o Cape Times, da Cidade do Cabo, diz na manchete que "Todos os caminhos vão dar a Qunu", ainda que ontem a festa fosse privada. Hoje haverá 500 convidados para a festa política, onde estarão os líderes do país e do seu partido.

Ontem muitos jornais do mundo colocaram Mandela na capa, ainda que em termos de personagens globais, o líder sul-africano sofresse ontem a concorrência do Papa Bento XVI nas primeiras páginas, por causa da sua visita à Austrália e da sua homenagem aos aborígenes.

Todos os sites dos jornais põem à disposição dos leitores serviço de mensagens para Nelson Mandela, que chegam de todo o mundo. Mas a mais importante para a África do Sul chegou por outras vias e veio de Zurique, da sede da FIFA, já que o Mundial de futebol de 2010, previsto para o país em 2010, tem sido posto em dúvida pelas dificuldades em terminar as infra- -estruturas necessárias. Mas Sepp Blatter mandou uma mensagem dizendo: "Espero vê-lo na cerimónia de abertura do Mundial da África do Sul, em 11 de Junho de 2010."

2008/07/12

Polo Norte

Caro Fernando Frazão,

Tratando-se de um diário económico, podíamos aplicar aquele ditado que diz “se a asneira pagasse imposto, o Estado seria mais rico”. Este texto é um completo disparate elucidativo do modo como os órgãos de comunicação social tratam o assunto que é de uma importância enorme para todos os cidadãos. A RTP também disse o mesmo em nota de rodapé. Reclamei perante o Provedor do Telespectador dizendo-lhe que a RTP estava a desinformar e desrespeitar os próprios contribuintes de um serviço que é pago para informar e não desinformar. Vejamos:
- Aquela situação é uma impossibilidade física. Se tal acontecesse, o Hemisfério Norte ficaria sem vento (as eólicas paravam completamente), sem humidade, etc.

- Neste momento exacto, o gelo marinho do Pólo Norte tem uma área com mais 1 milhão de quilómetros quadrados do que tinha em igual data do ano passado. Não quer dizer que não venha a ter menos do que o ano passado. A Mãe Natureza é que vai determinar a situação em finais de Setembro próximo futuro. Mas se tiver mais do que no ano passado, ou qualquer que ela seja superior a zero, acha que o Diário Económico e a RTP vão corrigir o disparate?

- Já agora, o gelo marinho do Pólo Sul, nesta altura, também tem mais 1 milhão de quilómetros quadrados de área relativamente ao ano passado. Ou seja, só a contribuição polar para a crioesfera apresenta 2 milhões de quilómetros quadrados a mais, o que é uma notícia extremamente positiva escondida pelos media.

Grato pela sua mensagem, fico à sua inteira disposição para qualquer esclarecimento que seja capaz de dar.

Rui G. Moura



De: Fernando Frazao [mailto:fernando.or.frazao7@gmail.com]
Enviada: quinta-feira, 10 de Julho de 2008 21:45
Para: rui.g.moura@sapo.pt
Assunto: Polo Norte


Boa noite

Sou um leitor atento do seu blogue.

Gostaria que comentasse o artigo (?) publicado hoje no Diário Económico com o seguinte texto:


Pólo Norte sem gelo este ano

O Pólo Norte pode ficar sem gelo este Verão. Os cientistas dizem que este é um cenário mais do que provável e a culpa é do aquecimento global, que há mais de dez anos que está a reduzir a camada de gelo do Pólo Norte. Mark Serreze, investigador do Centro Nacional da Neve e Gelo dos Estados Unidos, disse à agência "France Press" que em Setembro é concebível que barcos possam mesmo navegar do Alasca ao Pólo Norte.

Cumprimentos



Fernando Frazão

2008/07/10

Ela está com bom aspecto

Resposta de Ferreira Fernandes

Caro Senhor Fernando Frazão,

O texto da minha colega não é contraditório com o que eu escrevi. A minha crónica não desmentia que Ingrid Betancourt aparecesse com bom aspecto – e que isso não pudesse ser, até, motivo de espanto. Eu próprio fiquei, não espantado, mas surpreendido (na verdade, agradavelmente surpreendido). A minha crónica era contra os que perante esse facto insinuavam. Para o bom aspecto eu encontrei logo (nos 30 segundos que dediquei à questão) uma explicação verosímil: há meses que, pelas negociações internacionais, havia a possibilidade de uma libertação iminente, daí que as FARC a alimentassem bem para não ficarem mal vistas. Haverá talvez outra explicação. Mas o que eu não admito são as insinuações que, no limite, punham em causa o sequestro – e essas apareceram, muitas, na blogosfera. Aquela mulher perdeu seis anos da sua vida, perdeu seis anos do crescimento dos seus filhos adolescente, não esteve ao lado do pai quando ele morreu – e querem transformá-la, em vez de vítima, em cúmplice de não sei do quê?

Muito obrigado por me ter escrito, permitindo que eu precisasse o que havia escrito.

Os meus melhores cumprientos,

José Ferreira Fernandes

2008/07/06

Ela está com bom aspecto

ELA ESTÁ COM BOM ASPECTO


Ferreira Fernandes
jornalista
ferreira.fernandes@dn.pt
Está com bom aspecto, Ingrid Betancourt. Fico contente por a ver assim. Mas há também quem diga: "Está com bom aspecto, Ingrid Betancourt." Não é esta frase igual à minha? De regozijo? Não. É dita exactamente com sentido contrário, em forma de acusação: "Esta gaja, que ainda em Outubro do ano passado parecia uma tuberculosa olheirenta, aparece agora toda lampeira, de olhos brilhantes e até gorda, com duplo queixo…" Sim, há quem diga isso. E há quem responda: "Eh pá, também me dei conta! Isto é muito estranho…" São diálogos da blogosfera.

A blogosfera é o inferno para Jean-Jacques Rousseau: atirou a mentira deste ("os homens são naturalmente bons") definitivamente para o caixote do lixo da História. Pelas formas tradicionais de comunicação - conversas, jornais, moções parlamentares do PCP - os homens aprenderam a não dizer o indizível. Se têm de engolir um sapo - o fim da prisão de Ingrid Betancourt é um sapo para muita gente -, metem uns "mas" no discurso mas engolem-no. Ninguém diz: "Estou chateado com a libertação dessa agente do imperialismo." Só na blogosfera essa sinceridade insana acontece. Enfim, talvez Miguel Urbano Rodrigues seja capaz de dizer o mesmo, mas Miguel Urbano Rodrigues não é exactamente uma forma tradicional de comunicação. É mais uma forma do Paleozóico.

Já a blogosfera é moderníssima. Gosto dela porque nela muita gente escreve bem e também porque me garante: sim, os pulhas existem e até se exibem. A blogosfera acreditou para si uma tal forma de impunidade que chega a ser enternecedor ir lá para ver o que as pessoas dizem. Sobretudo nesse superlativo absoluto simples da blogosfera (onde já não se escreve tão bem mas a sinceridade é ainda mais crua) que são as caixas de comentários dos blogues. Como o anonimato é quase a regra, as pessoas expõem-se até ao mais recôndito bocado de si, sendo este, a mais das vezes, o intestino grosso.

É aí que tenho encontrado "Luísa", em várias caixas de comentários, geralmente a defender a Cuba de Castro e os narcotraficantes das colombianas FARC. Foi ela quem me alertou, agora, para a célebre fotografia de Ingrid Betancourt, de Outubro de 2007, magríssima e olhos desalentados, e a comparou com a esfuziante mulher destes dias. Desde Outubro, sabe-se, houve várias possibilidades de entrega da prisioneira e é natural que a engordassem para as FARC não ficarem muito mal na fotografia (delas, as FARC). Mas "Luísa" prefere sugerir: a prisão de Ingrid Betancourt foi uma farsa e a prova é que ela aparece como quem vem de um spa.

Não vou insultar ninguém lembrando o que Ingrid Betancourt perdeu nestes seis anos - quem quer, sabe. E fico muito agradecido à blogosfera por me lembrar que há gente como "Luísa".|

Bom dia
Acabei de ler a edição em linha do DN e, como habitualmente, comecei pela secção Opinião onde leio os seus escritos sempre em primeiro lugar (já agora um obrigado sincero pelas crónicas sobre Euro).

Concordo consigo quanto quanto à blogoesfera e o constante uso da insinuação sibilina e torpe quando não mesmo da calúnia "tout cour" quase sempre sob a protecção do anonimato.

Infelizmente após completar a leitura do DN cheguei à conclusão que a blogoesfera não está sózinha.

Atentemos, então, no DN editado no mesmo dia (coincidencias...) onde escreveu a crónica que provocou esta mensagem.
Na secção Inernacional, em artigo titulado "Saúde de Ingrid resiste a seis anos de cativeiro" assinado pela jornalista Susana Salvador escreve-se, "... A última imagem que havia de Ingrid Betancourt, a franco-colombiana que esteve mais de seis anos sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), era a de uma mulher magra, abatida, tirada de um vídeo filmado em Novembro. Por isso foi com algum espanto que o mundo a viu descer, confiante, do avião no dia da sua libertação. Ontem, depois de a ex-candidata presidencial ter passado sete horas num hospital militar em França a fazer exames, a irmã confirmou que os resultados médicos são "satisfatórios"." (sublinhado meu).

Não conheço a sua "amiga" Luísa (nem me apetece) mas afinal não foi só ela que ficou espantada. Citando o referido artigo parece que o "mundo" também ficou.

Melhores cumprimentos

2008/07/03

O Milagre de Ponte de Lima

Esta questão deu direito a honras de abertura de telejornal, discursos inflamados do "sacristão da esquerda" sobre a insensibilidade do estado e intervenção directa do Ministro da Saúde para reavaliação do caso e afinal... deu-se o milagre.
Retirado do Correio da Manhã de 1 de Julho:

01 Julho 2008 - 00h30
Ponte de Lima: Funcionária da Junta de Vitorino de Piães recuperou
“Foi uma graça do Cristo crucificado”
O espanto é geral entre a população de Vitorino de Piães, Ponte de Lima. Depois de toda a polémica em torno da reforma recusada e de oito meses de baixa médica por causa de doença supostamente degenerativa e incapacitante, a funcionária pública Ana Maria Brandão apresenta-se sem qualquer limitação física e aparentemente de boa saúde. Fala-se num milagre que terá ocorrido no Bom Jesus, em Braga.
"Foi uma graça do Cristo crucificado. Ela bem merecia, depois de quatro anos a sofrer, acamada e sem poder fazer nada", atestou Maria das Dores Lima, uma conterrânea de Ana Maria, contando que o suposto milagre terá ocorrido no feriado do Corpo de Deus.
Com uma cervicalgia e uma lombalgia degenerativas – após problemas em operações à coluna –, Ana Maria deslocou-se ao santuário do Bom Jesus, com a irmã e o afilhado. "O miúdo começou a chorar e a pedir ao Senhor para ajudar a madrinha, que estava em sofrimento e que sentiu um grande calor por ela abaixo. Mas só ao chegar a casa se apercebeu de que conseguia andar", descreveu Dores Lima.
No entanto, contactado pelo CM, o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, disse desconhecer qualquer informação sobre este caso.
A mudança física de Ana Maria – que ontem esteve incontactável – é de tal ordem que estaria pronta para regressar ontem ao seu trabalho como funcionária administrativa na Junta de Vitorino de Piães. Isso não se verificou porque a autarquia abriu um processo disciplinar e suspendeu Ana Maria .
"Ainda bem que a Ana Maria está melhor. Compreendemos a sua situação, mas na gestão de coisas públicas, como é a Junta, temos de garantir a legalidade. A lei diz que a Ana Maria teria de se apresentar ao trabalho após a Junta Médica, mas ela optou por apresentar novo atestado. Além disso, os atestados de funcionários públicos têm de ser passados por médicos da ADSE e não por médicos de família", explicou ao CM o secretário da autarquia, Carlos Lemos.
EVOLUÇÃO
VENCIMENTO
Ana Maria Brandão, que estará sob acompanhamento psiquiátrico, não aufere vencimento desde final de 2007. Por aconselhamento jurídico, a Junta deixou de pagar.
REAPRECIAÇÃO
Após três anos de baixa, Ana Maria viu ser recusado o pedido de reforma pela Caixa Geral de Aposentações. Teve de se apresentar ao trabalho a 5/11/2007. O ministro das Finanças pediu reapreciação do caso, mas o veredicto final não se alterou.
CRÓNICA
Em Janeiro de 2007, o neurocirurgião Joaquim Couto Reis classificou a doença de Ana Maria como "crónica" e que a "incapacita" para o exercício da sua actividade.
A ANDAR
Hoje, Ana Maria já anda, lentamente, sem qualquer ajuda. Tirou o colar cervical, braçadeira e cinta lombar. Está mais magra. Não pode fazer grandes esforços

2008/06/22

O Europeu de Futebol

O Ferreira Fernandes, jornalista do DN foi, no sei geito peculiar, cronicar na Suíça o Europeu.

Transacrevem-se aqui as ditas crónicas

NA PRÓXIMA SEREI MAIS CIENTÍFICO

Passei o dia a ler sinais. Tinha-me deitado com a Lua cheia, redonda de perfeição: "Bom augúrio, para quem é bom de bola..." Ontem foi o segundo dia seguido de sol. Sol rima com quê? Com o Funchal de quem vocês sabem ou com a Saxónia de Ballack? Entrei no estádio de Basileia e olhei a pista de dança. A esta hora, quando me lêem, já todos viram as centenas de rectângulos em que a UEFA converteu o relvado. Pedaços de esmeralda rasgados por clareiras de capim... Mau sinal? Claro que não. Se esses rectângulos estivessem marcados - 1, 2... 57... 84...179... - preocupava-me. Os alemães entravam com a coisa estudada, ao minuto 25, como combinado, Lahm, no rectângulo 143, centrava para o rectângulo 207, onde Klose esperava... Mas não, os rectângulos confundiam-se, estavam ao calhas. Eu disse a expressão sagrada: ao calhas. Ao calhas não de totós, mas de quem inventa no momento. Concluí: ontem era o nosso dia. Concluí mal, como sempre quem lê em vísceras fumegantes.|20

FAVORITOS ESSA É QUE É ESSA

A frase é batida: "Futebol é um jogo entre 22 jogadores, em que no final quem vence é a Alemanha." Disse-a um jogador inglês, Gary Lineker, traumatizado pelos panzers do relvado nos anos 70/80. É frase exagerada, claro, mas com argumentos: a Alemanha foi campeã mundial (3 vezes), vice-campeã (4), campeã europeia (3) e vice- -campeã (2). Uma vez, entrou completamente batida - final do Mundial de 54, contra a maravilha dos húngaros (que a tinham derrotado, dias antes, por 8-3) - e saiu do campo campeã e com o trauma da derrota da II Guerra Mundial resolvido. Essa é a Alemanha e o seu jogo preferido (tem 16 milhões de futebolistas, entre profissionais e amadores, 30 vezes mais que Portugal). Essa, a Alemanha que joga hoje com Portugal. O seu melhor jogador, Ballack, diz: "Portugal é o favorito." Dir-me-ão: é só frase. Sim, mas ao contrário da frase de Lineker, nunca tinha sido dita, nunca. Talvez essa glória só a vivamos até logo à noite. Mas que isso foi dito, foi.|19

SOBERBA COMO QUALIDADE DESPORTIVA

Estranha Holanda: não quis despachar um adversário perigoso. Os holandeses podiam ter pensado que o jogo de ontem (com a Roménia, 2-0) não era de 90 minutos, mas de 180 - acrescentando o jogo da semifinal. Ontem, bastava-lhes ter perdido (o que não beliscava o seu 1.º lugar no grupo), e ter-se- -iam livrado ou da França ou da Itália mais para a frente. Mas os holandeses eliminaram a Roménia e deram mais uma oportunidade ao vencedor do França-Itália (foi a Itália). Isto é, preferiram arriscar-se a encontrar outra vez a forte Itália (caso esta passe, nos quartos-de-final, a Espanha), preferiram isso, a apostar na sorte de encontrar outra vez a modesta Roménia (que teria seguido em frente se ontem tivesse ganho). A Holanda fez essas contas, mas, apesar delas, ganhou. Porquê? Porque a Holanda não queria um jogo combinado? Acho que a resposta é outra e igualmente admirável: a Holanda tem a soberba de se saber melhor do que qualquer adversário, seja este qual for.18







AQUILO É MUITA HISTÓRIA MÁ HISTÓRIA

O estádio do Prater, em Viena. A gente julga serem só pedras, mas que alguma coisa as habita, habita. Aquilo é muita história. Mudam-lhe o nome, agora é estádio Ernst-Happel, o grande treinador que dizia aos seus que subiam ao relvado: "Cavalheiros, três pontos." Mas o estádio continua o Prater. A história é muita. Em 1938, celebrou-se ali o Anschluss, a ocupação da Áustria pelos nazis alemães: juntaram-se as duas selecções. À equipa da Áustria chamavam-lhe "o time maravilha"; ao capitão, Matthias Sindelar, "o Mozart do futebol". Sindelar recusou- -se a alinhar pela Alemanha: ele e a mulher, Camilla Castagnola, suicidaram-se. Em 1939, no campo do Prater, a Gestapo mediu 440 judeus, depois mandou-os para Buchenwald. Ontem, o árbitro esqueceu-se dos jogadores e expulsou os dois treinadores, o alemão e o austríaco. Angela Merkl levantou-se para apoiar e falar ao seu treinador. Não devia. Mesmo passados 70 anos, os alemães deviam ser discretos. Pelo menos, no Prater.17

NO FUTEBOL NINGUÉM LEVA A MAL

A caminho do futebol, Cressier, uma aldeia da montanha, rua central deserta, é a Suíça ao domingo. Entro no hotel Croix-Blanche, quero almoçar: "Hoje não servimos, oferecemos." Conduzem- -me ao terraço traseiro. Há festa, com banda de sopro, presunto fumado e rosé da região. É gente do campo que se desfaz em sorrisos para o estrangeiro e aplaude-me por ser português. Gritam pelo patrão: José Ferreira, de Trancoso, com blusa de cozinheiro, comemora com os vizinhos a sua chegada, há 20 anos. Bebo, como e sou feliz. Despeço-me e peço desculpa pela vitória de mais logo. (Julgava eu...) Sentia-me Obdulio Varela. Sabem, o capitão do Uruguai que derrotou o Brasil, no Maracanã, em 1950. Depois do jogo, sozinho, ele entrou pela noite do Rio. Numa tasca, pediu uma cerveja e reconheceram- -no. Temeu ser agredido. E foi: um jovem chorou-lhe, ao ombro, toda a tristeza do Brasil. Só então, Varela se deu conta do mal que fizera. E estava disposto a repetir. No futebol até as tristezas são boas.16

Ó P'RA MIM CÁ EM CIMA

Não se gosta de uma equipa porque ela é a boa, mas porque ela é a nossa. Depois de ela ser a nossa, quando a ligação já tem memória e essas coisas, então, vamos descobrir as razões porque ela é a boa. Encontram-se sempre.

A questão é, pois, a inicial: porque é aquela a nossa equipa? Eu conheço a minha razão. Até porque a minha equipa é Portugal e quando a minha equipa começou a ser Portugal - falo do início dos anos 60 - Portugal era a última coisa que me embalava. A minha razão: Coluna. Um não branco a mandar em brancos. Um capitão, patrão inquestionável, coisa que se via das bancadas: "Sr. Coluna, posso ser eu a marcar o livre?", perguntava um rapaz pálido. E o Sr. Coluna deixava, ou não.

Não queiram saber como aquilo era ar fresco. A selecção portuguesa desse tempo era como a Nokia hoje para a Finlândia - por ela, o mundo talvez não soubesse, mas adivinhava a modernidade. Talvez não nos invejasse, mas devia. Foi nessa altura que me tornei adepto da equipa. Lembro, naquele tempo não havia negros a jogar na Europa: Didi, um mestiço como Coluna, um dos três deuses da melhor equipa de sempre (Brasil, 1958, com Garrincha e Pelé), saiu do Real Madrid empurrado por vexames racistas.

Outros têm as sua razões para amar a equipa. A mão de um pai que nos levou ao Jamor... O importante é ficarmos com esse sentimento de pertença. Fixados, coleccionam-se momentos, como outros, cromos. No meu passaporte de cidadão da selecção nacional, o carimbo mais querido é, claro, o daquele Portugal-Coreia, Mundial de 66. Mais uma vez, amei Portugal quando ele se revelava nos antípodas de Portugal. Os 9 999 999 portugueses desalentados com o 0-3, e um português de raça decidido a mudar o destino. Eusébio carregando o País às costas deu a volta ao resultado, negando-se a abraços até à epopeia concluída. Nunca chorei tão bom.

Depois disso, o meu affaire com a selecção nacional têm sido chispas, meras chispas - Futre e Chalana, Figo e Rui Costa e, até, Ricardo, o dos penáltis. Sempre acreditando tudo, sabendo que teria pouco. A selecção era como aquela amante feia de quem só nós sabemos das qualidades e não dá para apregoar. Um affaire íntimo.

E não é que cheguei a esta selecção? A do Deco inclinado para a frente e do Cristiano Ronaldo inclinado para trás (só um apaixonado vê estes pormenores), que a Europa deu em invejar? Confesso, não sei como lidar com a situação. Não sou dos que pintam a cara e usam chapéus bizarros, sou dos que amam baixinho. Mas quando colegas de L'Équipe e de La Gazzetta dello Sport olham para mim como eu olho para o namorado da Scarlett Johansson, confirmo: "Sim, eu ando com esta equipa já há muitos anos..." E ponho um ar ainda mais discreto porque já apanhei as manhas dos poderosos.16
PROFISSÃO: DESPACHAR PEDANTES


Titulava ontem o jornal francês L'Équipe: "É preciso mexerem-se!" Ora, mesmo no curling - aquele jogo em que o mais emocionante é ver varrer o gelo -, todo o desporto é definido por um mexer qualquer. Quando o mais prestigiado jornal desportivo da Europa dá um conselho óbvio aos seus, coitados dos seus. E mais coitados, ainda, quando eles seguem o conselho: a França mexeu-se. Atitude imprudente quando Thuram tem 36 anos e Makelele, 35, idades em que os grandes futebolistas já são maus comentadores televisivos. A França seguiu a batuta da sua barata tonta Ribéry, o que é grave, sempre, e mortal quando do outro lado estava a que, ontem, era a melhor equipa do mundo. Para esta, a Holanda, um só senão: habituou-nos a ganhar por diferença de três golos. Um dia, ganha por 2-0 e a equipa interioriza a derrota. Faz lembrar, ao contrário, Paulo Portas: as sondagens dão-lhe 3%, ele acaba por ter 5% e faz a vida política com isso. A Holanda merece melhor destino.14
GEOESTRATÉGIA ENTRE QUATRO LINHAS


Dois países organizam o Euro durante cinco anos. A Suíça, ao fim de quatro dias, é eliminada. A Aústria, no último minuto, ontem, recebeu um suplemento de mais uns diazitos. Ela vai ter de vencer a Alemanha, que tem de jogar para um empate. No futebol, o conflito de interesses germano-austríaco é novidade. São históricos os conluios. Umas vezes, conversados, como no Mundial de 1982. Precisavam ambas do 1-0 a favor da Alemanha, o que faria passar as duas - fez-se esse resultado aos dez minutos e nos outros 80 trocaram a bola entre assobios dos espectadores e a raiva da prejudicada, a Argélia. De outra vez, a conivência foi imposta e retumbante: antes do Mundial de 1938, a Alemanha anexou militarmente a Áustria e, de passagem, anexou-lhe cinco jogadores para a sua selecção. Não valeu de nada: a Alemanha com reforço austríaco foi eliminada. Por coincidência, por esta triste Suíça, que acaba de ser convidada a sair da festa que se realiza em sua casa.
OS HINOS O POSTE E O ARTISTA



A suíça Mireille Grosjean pôs um processo à UEFA, responsável do Euro 2008, por causa dos hinos: "Incitam à violência." Não falou do nosso "Às armas! Às armas", estava mais indignada com o "sangue impuro" referido na Marselhesa. Ontem, no estádio de Genebra, notei que Nuno Gomes se engasgou no "egrégios avós" e pareceu-me arrevesado o "domov nuj" dos checos. Um tropeço para cada lado - é o que exijo ao desporto: a igualdade à partida. Por isso, a UEFA, a ter de banir alguma coisa, são tipos tipo Koller, de 2,02 metros. Se permitem pilares de electricidade, mesmo sem fios, um dia vamos admitir guarda-redes superlutadores de sumo que entupam a baliza. Koller não jogou nada mas falo como amante da arte (da Art Deco em particular): não gosto de futebol armado ao pingarelho. Logo que um checo pegava na bola, tratava de a fazer pingar para o poste. Isso distraía do essencial, do que se passava 25 centímetros abaixo. Ao alto nível dos 1,77 m de Deco. 13

O FUTEBOL É MAIS DO QUE BOLA A ROLAR


Quando foi à Suíça para o dia inaugural do Euro, Durão Barroso citou Roman Gary: "Patriotismo é gostar dos seus, nacionalismo é odiar os outros." Roman Gary era polaco, como esse Lukas Podolski que joga na selecção alemã e marcou golo contra a Polónia dos seus pais. Gary nunca combateu contra a Polónia, mas combateu por outras pátrias: foi companheiro de De Gaulle na libertação de França. Sob o pseudónimo de Émile Ajar, escreveu um dos mais comoventes livros da minha vida, La Vie devant Soi - uma velha judia e um pequeno árabe, em Pigalle. Gary compreenderia Podolski, o do golo contra a pátria de ambos. Porque o futebol é lugar de patriotismo e o patriotismo permite outros patriotismos, até para si próprio. No estádio de Genebra, antes do Portugal-Turquia, viu-se na tela o golo checo contra a Suíça. A bancada dos imigrantes emudeceu de tristeza. Os portugueses da Suíça são como Podolski e sabem- -no. O futebol ensina-nos que pátria não há só uma.12
A TOLICE DA MECÂNICA DA LARANJA


É extraordinário que o tão aleatório futebol seja fiel aos seus costumes. Sobretudo quando estes são do tipo sem explicação. O futebol tem fantasmas e não consegue fugir deles. Olhem a Itália e a sua mania de alpinista, que já aqui evoquei e começou, ontem, a confirmar-se. Nos Mundiais, de 12 em 12 anos, ela brilha: 1970 (finalista), 82 (campeã), 94 (finalista) e 2006 (campeã). Cume atingido, nos Euros seguintes a Itália vem por ali abaixo: em 1972, saiu nos quartos-de-final; em 84, nem lá foi (ficou-se nas eliminatórias); em 96, caiu na fase de grupo. Em 2008, a tradição parece manter-se com a derrota de ontem. Mas chega de falar de comparsas, quando ainda nada se disse da admirável Holanda. Reparem que já comecei a respeitá-los: chamei-lhes Holanda. Como poderia ter dito Flechas Infernais ou Agarrem-nos Se Podem. O que nunca lhes chamaria é Laranja Mecânica. Laranja, da camisola, ainda vá lá. Agora, comparar aquela arte a coisa de bielas e manivelas...10

LER FUTEBOL É SABER MAIS


Na defesa central da selecção: Pepe e Carvalho (nós não usamos assim mas foi título do jornal L'Équipe). Quase como Pepe Carvalho, o célebre detective do escritor catalão Manuel Vásquez Montálban. O detective Pepe Carvalho resolve mistérios exóticos e ainda há pouco Pepe e Carvalho resolveram o caso dos turcos. Os nossos Pepe e Carvalho também caçam assassinos (que é o que deve ser um bom adversário naquela zona do campo) e, como Pepe Carvalho, fazem-no, não ao murro, mas pensando (sobretudo Carvalho, cirurgicamente, esticando o pé). Pepe Carvalho é gastrónomo, escolhe os ingredientes e cozinha-os filosoficamente. Pepe e Carvalho não gostam de ser comidos e, cumprindo uma filosofia (a melhor defesa é o ataque), gostam de comer os outros subindo à baliza deles. Pepe Carvalho queima os seus livros à lareira. Pepe e Carvalho quando abrem o livro incendeiam o jogo. Pepe Carvalho é um detective privado. Pepe e Carvalho estão em vias de ser monumentos públicos.9
OS REPESCADOS MOVEM-SE A CERVEJA


Nuno Herlander Simões Espírito Santo. Dinamarquês. Não olhem ao nome, mas à condição. O que é ser dinamarquês numa época destas? Numa época que começou ontem e acaba a 29 deste mês? Eu digo: é estar de férias, de papo para o ar mas triste, estendido na areia mas a sonhar com relva, não fazer nada e invejar os que fazem. É estar como os futebolistas da selecção dinamarquesa no fim da Primavera de 1992. Eles tinham perdido a qualificação para ir ao Euro desse ano, na Suécia. Estavam desolados porque, anos antes, tinham ganho um pseudónimo brilhante, Dinamáquina, e não podiam confirmá-lo.

Estavam assim os dinamarqueses - tendo os futebolistas escolhido o fim do mês de Maio para ir de férias. Foi então que a Jugoslávia se transformou no campeonato que se sabe e que Kusturica contou como ninguém. Na presunção de que um país que se retalha não merece ser metido numa só camisola, a UEFA desqualificou a Jugoslávia. E aquela que tinha partido pescar, a Dinarmarca, acabou repescada. Contactaram-se os futebolistas que andavam pelos quatro cantos do mundo, contaram-se os 23 necessários, disseram-lhes que eram uma equipa (não houve tempo para mais) e despacharam-nos para Gotemburgo. Nunca uma equipa chegou à fase final de um torneio internacional menos preparada e com mais olheiras.

Não sei onde estava Nuno, de 34 anos, o guarda-redes suplente do FC Porto, na sexta-feira passada (sei, estava no Algarve, mas isso é vulgar). Para a minha história convém-me que estivesse nas Maldivas. No tal papo para o ar e triste e baço. Felizmente para ele, tinha o telemóvel ao lado, pousado na toalha com palmeiras. Ouviu o toque e atendeu: "Menino - disse quem ele logo soube ser o Sargentão - tira os calções de banho e vem vindo logo."

Nas Maldivas estão habituados às manias dos turistas e ninguém ligou àquele rapagão que correu nu para o aeroporto - já sem calções de banho, como lhe tinha sido ordenado. E Nuno chegou, já hoje, à Suíça, ao Euro, tal como os dinamarqueses há 16 anos chegaram à Suécia, ao Euro. Que raio de Sarajevo terá acontecido para esta respescagem de Nuno? Calma, fala-se aqui de Portugal, selecção de brandos costumes. Não foi necessário derrubar a ponte de Mostar, nem encher valas de cadáveres, nem tornar popular a palavra sniper. Em Portugal, fazemos tudo mais barato: bastou o pulso de Quim.

Nuno Herlander Simões Espírito Santo, o dinamarquês, pois. Mas para o ser completamente, deixem-me lembrar mais. Os dinamarqueses, já que foram numa de por acaso, levaram a coisa na boa. Foram para um hotel de porta aberta, havia cerveja nos corredores e visitas das namoradas. No fim, foram campeões. Eu, se fosse o Scolari, deixava pelo menos o Nuno com essas regalias.8
ANÁLISE CALMA E PONDERADA



Se me perguntarem: "Onde vais?" Responderei: "Vou para a festa!" Sinto-me como quando desembarco em Nova Iorque, que é o mesmo que sentia o Fabrice da Cartuxa de Parma e o Eugène de Rastignac da Comédia Humana ao chegarem a Paris. É entre nós dois, Cristiano Ronaldo. O que não quer dizer que não te traia com o Nani. O que eu peço é só ser fascinado. Só. No ponto em que estou, não custa nada. Três fintas, uma delas daquelas que sentam um turco. Um golo num canto insuspeito. Uma bola domada no peito. Quero geometria, muita geometria, lusa geometria, passando tangentes aos outros, nunca secantes. Quero ver a garra de Petit, o único tipo com cara de ciclista que venceu no fute. Quero uma cavalgada de Bosingwa passando o Bósforo. Quero Ricardo Carvalho imperial como um otomano de antigamente. Quero só tudo. Deco parado a olhar. Se quando ele não olha faz maravilhas, imaginem quando um estádio pára, a Terra deixa de rodar e Deco olha. Quero vir da festa exausto.


NÃO, NÃO ACHEI QUE ELES EXAGERASSEM


Gosto do futebol jogado. Ronaldinho, o brasileiro, esperando que a barreira salte para ele enfiar a bola por baixo das infelizes solas do adversário dá-me satisfação pura. A selecção enquanto visitadora do Presidente já me deixa indiferente - quero lá saber do protocolo em geral e de rapazes mal engravatados em particular. Por outro lado, um Presidente amante de futebol que se emocionasse por abraçar aquele rapaz que lançou as luvas para o canto e resolveu um desafio que tinha o Portugal em suspenso, já me deixaria comovido. Como fiquei ao ver a emoção maluca dos portugueses de Neuchâtel. Volto ao futebol de que gosto: gostei de ver Ronaldinho a fazer aquilo porque desejei toda a minha vida fazê-lo e nunca soube. Gosto do futebol por ambição diferida: admiro quem sabe o que eu não sei. Compreendo bem os emigrantes que admiram portugueses que eles sabem que o mundo admira. Só não percebe o orgulho deles quem não sente necessidade de admirar.

2008/06/01

Alfredo Saramago

Só ontem soobe que o Alfredo morreu. Estava na Suécia e os "vikings" não sabem quem ele era. Onfelizmente muitos portugueses também não.
Lembro-me de ter ido à Barata na Av. de Roma e perguntar se tinham o Livro de Caça do Saramago. perante o olhar entre o reprovador e o espantado eu disse "o Alfredo não o José. Perante a continuação do olhar interrogador esclareci que era um livro de culinária. Ah! foi a resposta.
A luta pelo "nosso" sem pieguices nacionalistas tornou-o num icone.
Restam os livros e as receitas para continuares a noss memória. E claro, um belo charuto no fim.

Bem hajas

2008/05/08

Adoniran Barbosa - Copa de 1982

Adoniran Barbosa e Elis Regina

Adoniran Barbosa e Elis Regina 1978 (completo)

mmmmm

Dia da Mãe

||| Maio de minha mãe.


O primeiro de Maio de minha Mãe
Não era social, mas de favas e giestas.
Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Avô
— Polimento, esquadria, engrade, olhá-la ao longe —
Dava assento a Florália, o meu primeiro amor.

Já não se usa poesia descritiva.
Mas como hei-de falar da Maromba de Maio
Ou, se era macho, do litro de vinho na sua mão?
O primeiro de Maio nas ilhas, morno como uma rosa,
Algodoado de cúmulos, lento no mar e rapioqueiro
Como Baco em Camões,
Límpido de azeviche
E, afinal de contas, do ponto de vista proletário,
Mais de mãos na algibeira do que Lenine em Zurich.
(Porque foi por essa época: eu é que não sabia!)

A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas
E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro
Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu Avô,
Cujas quedas iguais, gravíficas, profundas,
Muito prego em cunhal deixaram,
Muita madeira emalhetaram,

Muita estrela atraíram ao bico da foice do Ribeiro
Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.
Favas de Maio do meu tempo!
Havia poder popular
Nas mãos de minha Mãe, que as descascava como flores
E flores eram de si, na Flórea abada
Como se já guardassem flor de laranjeira e açaflor
Nas suas intenções de Maio 1918, para as depor
(Nem pensada sequer) na fronte à minha amada.

Vitorino Nemésio

Pra rua me levar



Coisas necessárias.

Seu Jorge - Zé do Caroço



Ele canta Leci Brandão. Se alguém tiver por aí a versão de Mariana Aydar, eu gostava

Lembranças de Adoniran Barbosa - Samba do Arnesto



Um clássico de Adoniran, o Samba do Arnesto»

Lembranças de Adoniran Barbosa



A grande voz de São Paulo. Adoniran Barbosa em fragmentos: «eu não quero chorar», diz ele a certa altura, «eu não posso chorar».

DESEMPREGO

Pelo meu intratável e malévolo esquerdismo genético, que evidentemente nos ex-esquerdistas é considerado um defeito de carácter (nos direitistas, antigos fascistas ou "situacionistas", pelos vistos não é, porque ninguém os acusa de estarem presos psicologicamente ao seu passado, bem pelo contrário podem ser democratas sem mancha e sem memória), sempre insisti nas campanhas eleitorais em que participei em visitar as fábricas, em encontrar os trabalhadores "à saída das fábricas" e em escapar ao interminável percurso pelas "instituições de solidariedade social", ou seja, lares de idosos cujo director era dos "nossos".

Poucas coisas mais deprimentes aconteciam do que ouvir um zeloso director a falar com uma velhinha - "sabe que a Mariazinha tem noventa e cinco anos e ainda canta, canta aqui ao senhor deputado, canta" - e desejar veemente que a terra se me abrisse à frente e enviasse a senhora Maria para o Céu, onde certamente está, e a mim para o Inferno, porque entre as suas piores penas não está assistir à humilhação alheia, de quem já não tem defesa do seu querer. Talvez a senhora Maria gostasse daquela última atenção e seja eu que esteja enganado, mas é por essas e por outras que abomino o populismo e não sirvo para certas coisas.

Voltemos à "saída das fábricas", lugar que se tornou maldito depois do dr. Menezes dizer que aí estaria em permanência. Nessas campanhas eleitorais passei por várias grandes fábricas, não só em dimensão como no número de trabalhadores que, já na altura, não abundavam no país, cuja desindustrialização fizera desaparecer muitas que a nossa sempre débil industrialização tinha feito. Todas essas fábricas, todas sem excepção, desapareceram nos últimos dez anos. Em tão poucos sítios é possível ver a história a fazer-se como se fosse um filme acelerado. Estava lá ontem, hoje já não está.

Eu, que sou portuense, sabia que poucas coisas se abatem mais rapidamente do que as grandes fábricas. No Porto, tudo o que era amplo espaço urbanizável nas décadas de setenta e oitenta estava no lugar vazio de uma grande fábrica, quase sempre têxtil, e as novas urbanizações para a classe média alta tinham o nome das fábricas como a William Graham na Avenida da Boavista. (ver foto) Desaparecidas as fábricas têxteis de Salgueiros, da Torrinha, das Sedas, para além das fábricas de fósforos e de cerveja, a cidade substituía as imensas construções fabris por apartamentos. Num artigo do Expresso, um dos primeiros escritos em Portugal sobre a salvaguarda do património industrial, ainda tentei que se preservasse alguma coisa da Fábrica de Salgueiros, um exemplar típico da arquitectura industrial então em ruínas, mas o efeito do artigo foi que o que sobrava foi deitado abaixo logo a seguir, não fosse haver alguém que se lembrasse de prestar a atenção à nova (por cá) concepção de arqueologia industrial e dificultasse o caminho aos bulldozers.





Esta semana, com o despedimento de centenas de trabalhadores da Yasaki Saltano de Gaia, recordei-me de outra grande fábrica desaparecida, a Clark"s de Castelo de Paiva, uma daquelas onde estive "à saída da fábrica". Por muito boa vontade que se tivesse em fazer política, distribuir uns papéis, falar com pessoas, na "saída das fábricas", a Clark"s era um sítio péssimo para o fazer. A saída era espectacular, mas muito, muito, rápida. Nos breves momentos que durava, um mar de raparigas, mulheres jovens e na meia-idade, o maior número de gaspeadeiras que alguma vez vi na vida, saía como uma mola das portas interiores e corria, literalmente corria, para os portões e desaparecia pelas ruas e caminhos, em motocicletas, algumas em carros. Dez minutos depois, não havia ninguém e os papéis dados à pressa no meio daquelas almas fugidias desapareciam com elas tão depressa como a noite se punha.

A corrida tinha uma razão de ser, iam para casa o mais cedo possível cuidar dos filhos e do marido, cuidar da casa, não tinham tempo a perder com políticas. Como na Yasaki Saltano, a maioria dos trabalhadores são trabalhadoras, mulheres, muitas bastante jovens, muitas com poucas qualificações e que abandonaram a escola antes do tempo, a face visível do "insucesso" e do "abandono escolar", para irem trabalhar e constituir família numa idade em que os mais abastados ainda se arrastam pelo 12.º ano ou pelos primeiros anos da universidade e vivem em casa dos pais. A atracção do emprego e da família, da "sua" família, marido e filhos, não é apenas motivada pela necessidade económica, mas sim pela procura de autonomia, de uma vida própria na teia demasiado densa das famílias ainda próximas da ruralidade. Castelo de Paiva não é propriamente o centro do mundo urbano e Gaia ainda tem muitas aldeias.

O desemprego é devastador para todos, mas é-o mais para estas mulheres jovens e de meia-idade. Não é apenas a sua condição económica, a sua condição de vida que é afectada, é também a sua autonomia como mulheres, a sua capacidade de terem no salário e no emprego uma vida e uma dignidade próprias como mulheres, num mundo em que esta afirmação ainda é crucial. Recebida a notificação do desemprego, passado o período da agitação, as notícias e contranotícias de que pode haver um plano de integração na fábrica ao lado, ou a cinquenta quilómetros dali, que pode haver um supermercado que as aceite prioritariamente, que a câmara vai cuidar delas, que os sindicatos vão obter uma melhor indemnização, etc., etc., chega uma altura em que acabou. Acabou mesmo, está desempregada.

Nesse momento, em que o dinheiro que se levava para casa começa a faltar, a mulher começa a fazer contas e a cortar nas despesas. E não corta no pão, no infantário, na luz, na casa, no telemóvel - há-de vir a cortar - corta nas suas despesas, nas despesas consigo. Vai menos vezes ao cabeleireiro, arranja-se menos, compra menos roupa, tudo coisas que parecem fúteis para quem tem tudo, mas que representam um caminho para uma menor auto-estima, um desleixo que pode vir a crescer com os anos, se passar definitivamente de operária a dona de casa. É um caminho invisível, um passo atrás em que ninguém repara a não ser as próprias.

Elas sabem o que é não ter emprego, ou ter que mudar para outro emprego menos qualificado, mais solitário, mais dependente, socialmente menos reconhecido. Elas sabem que podem fazer menos coisas sozinhas, com o seu dinheiro, sem prestar contas a ninguém. Elas sabem o que significa ficar mais dependente do marido ou dos pais, ter menos esperança para os filhos, desistir de coisas que achava até então possíveis: umas férias baratas no Algarve, um carro melhor, mais visitas às lojas do Arrábida Shopping, não para ver as montras, mas para entrar lá dentro e comprar aquela roupa para o "bebé", ou aquela blusa. E sabem que saem menos e vêem mais televisão.

O desemprego pode suscitar mil e uma discussões teóricas, e ser inevitável como "destruição criadora", como "reconversão" da nossa economia, como efeito de políticas erradas que assentam na ilusão de um "modelo social europeu" insustentável face à natalidade e à globalização, tudo isso. Também eu penso que a deslocalização das fábricas é inevitável e que muito tecido industrial que temos não resiste à realidade da economia actual e que, com a nossa baixa qualificação da mão-de-obra, não temos a plasticidade para encontrar alternativas que tornem "criadora" a "destruição" schumpeteriana. A trabalhadora da Yasaki Saltano que disse que ia aproveitar a "oportunidade" para completar o 12.º ano tem toda a razão e aponta o caminho, mas nem por isso deixa de ter todas as dificuldades e não é certo que possa vir a poder utilizar as suas novas qualificações.

Mas nem por não se ter qualquer solução a curto prazo, a sociedade, nós todos, devemos deixar de olhar para cada um destes desempregos colectivos de mulheres sem a preocupação de vermos e sentirmos a devastação que ele tem por trás, o atraso social que isto significa para Portugal. Estas mulheres não vão educar os seus filhos da mesma maneira, vão reproduzir melhor o Portugal antigo do que preparar o novo. Elas sentem que falharam, tinham algumas ilusões que perderam. Mas nós falhamos mais se não temos a consciência de fazer alguma coisa. Porque se pode, na acção cívica, no voluntariado, no mundo empresarial, na política, fazer muita coisa por estas mulheres. O que é preciso é vê-las e à sua condição e não as cobrir com o manto diáfano da inevitabilidade. A começar pelo Governo, que mais uma vez se vai voltar para o betão e não para as pessoas.

(Versão do Público, de 3 de Maio de 2008.)