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2014/11/01

Pôr ou não pôr - eis a questão

Brilhante como é habitual.

 Para Passos pôr e repor é um supor
por FERREIRA FERNANDESOntem51 comentários

Confusão!, queixavam-se os jornais online. Referiam-se ao discurso inicial de Passos Coelho, ontem no Parlamento, sobre a reposição dos salários da função pública - que seria integral em 2016, disse ele -, e que, pouco depois, o próprio primeiro-ministro modificou para uma reposição gradual de 20% a partir de 2016. Confusão coisa nenhuma! O que houve foi a preguiça habitual dos jornalistas que não souberam ouvir Passos Coelho. Felizmente estava lá eu. Aqui vos deixo as palavras límpidas do orador: "Senhores deputados, como ainda há pouco vos disse que repunha, desdigo agora porque não ponho. E dizendo-o, mais que digo, reitero, porque se ponho o que não punha nada mais faço do que dispor sobre o que antes não pusera. Ponho, pois. Isto é, não ponho. E sendo isto tão claro, não contraponham reticências onde exclamação pede ser posta: não só reponho como logo oponho! Reponho tudo, como eu disse às dez. E só ponho 20% (que é não pôr 80), como garanti ao meio-dia. Não é isto tão simples? Pôr e repor é um supor. Meu senhores, se há verbo que gosto é do pôr - no indicativo ("enquanto vós púnheis o voto na urna"), no conjuntivo ("quando eu puser as promessas mais falsas") e no imperativo ("põe tu as ilusões de molho") -, e, sobretudo, nesse maravilhoso pôr conjugado no porém. Ah, dizer pôr e, com porém, passar ao não pôr... Eis, senhores deputados, a essência do que para mim é ser porítico, perdão, político."

2014/09/08

Escócia

Aqui se transcreve a crónica de hoje de Ferreira Fernandes no DN sobre o referendo independentista, tendo como pano de fundo a sua habitual lucidez.
A Europa está parva e é geral
A pergunta, como em todos os referendos bem feitos, vai ao osso: "Deve a Escócia ser um país independente?" Nenhum chantilly para encher o olho, nenhuma palavra supérflua. Nem mas nem meio mas: sim ou não? Milhares de anos de misturas de povos como inevitavelmente aconteceu, porque se passou numa ilha, e pequena ilha, e três séculos de pátria comum, o Reino Unido da Grã-Bretanha, desde 1707... E agora (dia 18 de setembro), separa-se, como o trigo do joio: sim ou não? Muito antigas derrotas comuns (por exemplo, na Independência americana) e vitórias comuns (I e II Guerras Mundiais), um destino imperial feito junto, descobertas de máquinas e de ideias, literatura, desastres, sonhos e líderes partilhados. Tudo isso, passado, valores, história, famílias - inevitável forte identidade - depurado numa dicotomia: escoceses para um lado, os outros para outro. Um dos defensores do "sim" à independência, diz-me o jornal The Guardian, declarou que nada mais une a Inglaterra e a Escócia senão história e família. Senão? Não me parece coisa pouca. E ouso, eu que estou de fora, falar deste assunto porque salta-me a superficialidade com que o referendo é tratado. Eu, português, que por razões ocasionais da minha empresa residisse há três anos em Edimburgo, apesar de não saber quem são os Stuarts posso votar - cortar, sim ou não, no destino do Reino Unido -, mas um escocês a residir em Londres, não. A Europa está parva e é geral.

2012/02/08

Não leia, isto é velho de 75 anos

Ferreira Fernandes, hoje, brilhante como sempre


Então, recapitulemos. A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.

2012/02/02

As caixas de comentários

O António Teixeira do Herdeiro de Aécio retirou, recentemente, a possibilidade de comentar seus posts, coisa que me incomodou.
Questionado o motivo, o António (acidental ou propositado), amavelmente, respondeu com o texto, que seguidamente se reproduz, não sem primeiro lhe solicitar autorização e que origem à conversa que também se transcreve:

Caro Fernando Frazão

Foi deliberado. É um estado de espírito... É verdade que os comentários são escassos mas nem é isso que afecta o espírito. É o cariz dos que iam aparecendo. Os penúltimos eram de um coleccionista russo especializado em medalhas de bombeiros. Quando lhe respondi que usara um sítio despropositado para tal actividade, respondeu-me precisando que o que ele queria eram as 6 medalhas de Liga dos Bombeiros... O poste era de Outubro de 2006 e a respeito do exercício prepotente da hegemonia australiana sobre as nações insulares do Pacífico... http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2006/10/tv-nostalgia-fora-de-srie.html

Os últimos eram de um tal José e nem sei bem como os classificar, entre o provocador ou - benignamente - uma tentativa de humor mal sucedida. E isso também talvez da minha parte. http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2012/01/aqui-e-portugal.html Mas quando se pretende discutir a data de emissão original dos anúncios televisivos dos produtos da Couto Lda., dá-me cá um peso em cima dos ombros... Não é apenas por ter escrito sobre esse assunto, a propósito da pasta medicinal Couto há pouco mais de um mês - http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2011/12/palavras-para-que.html. É sobretudo porque esse poste aparece comentado precisamente por esse mesmo José que tem agora a certeza que o anúncio do restaurador Olex só apareceu depois do 25 de Abril. Ou seja, pelo que lá escreve, o José terá percebido a ideia com os dentífricos mas agora seria preciso explicar-lhe tudo de novo para os restauradores... Enfim, creio que é só uma fase, lá mais para diante a minha disposição mudará, mas sobretudo agradeço-lhe muito por ter perguntado.

Cumprimentos

A.Teixeira

Segue a minha resposta:

Caro António

Eu percebo o seu estado de espírito que deve ser o mesmo do Ferreira Fernandes ou do nosso homem em Paris.
Mas é pena, porque a bondade da coisa não pode ser posta em causa e sempre se fica a conhecer muita gente boa.
De qualquer modo, entre nós, peço-lhe licença para, de vez quando, invadir a sua caixa de mail com um comentário ou outro.Suponho que dado o historial de comentários meus aos seus posts (e dos seus aos meus), não temerá algum despautério da minha parte.

Já agora peço-lhe licença para publicar este seu mail no meu blog.

Cumprimentos

Resposta definita do António

Caro Fernando
Ele há coisas que são tão inerentes e tão evidentes que me dispenso de as apontar - mal.
Faz muito bem em querer deixar esclarecido esse aspecto e em chamar-me a atenção para tal.
Claro que o deixo completamente à vontade para trocarmos estas impressões que tão agradáveis se têm revelado até. E concordo consigo que há trocas de impressões muito agradáveis: por exemplo, os antepenúltimos comentários do JPT do Mas-chamba - com quem já tive duas interessantes pegas - foram perfeitamente normais, a respeito das influências norte-coreanas (http://herdeirodeaecio.blogspot.com/2012/01/influencia-da-asia-oriental-nos-paises.html).

Por outro lado, sempre assumi que, quando os comentários estivessem indisponíveis, quem me quisesse realmente contactar faria aquilo que o Fernando fez: usa a opção do Correio que, desde o princípio do blogue, estivessem as caixas de comentários abertas ou fechadas, sempre lá esteve disponível. Acresce ainda que, como o blogue é individual, essa caixa de correio é, por inerência, pessoal. Aliás, nesta etiqueta de blogosfera, sempre fiz uma distinção entre mensagens e comentários. Umas são privadas, os outros públicos, o que nem todos parecem entender. Não costumo, por exemplo, quando detecto algo que considero uma incorrecção evidente e significativa num blogue dos que prezo, utilizar a caixa de comentários do blogue para informar dela o autor. Sempre que possível uso o correio que é mais discreto. Não é minha intenção exibir a minha argúcia - que rapidamente se verá ultrapassada, de resto, se o autor aceitar a minha sugestão... - apenas auxiliar um colega. Também confesso que a contrapartida a essa concepção é que aceito muito mal quando se modificam postes depois de eles terem sido comentados e sem que essa alteração seja devidamente assinalada pelo autor...
Quanto à licença que me pede, esteja à vontade.
Não sei se concordará comigo, mas a única vítima da potencial indiscrição, e já que nenhum de nós terá um grande auditório russo, será o amor próprio do dito José... e muito por culpa própria!
Cumprimentos

A.Teixeira

2011/09/01

Ferreira Fernandes

As conferências de imprensa de Vitor Gaspar têm "sobre a sociedade portuguesa o mesmo efeito que uma consulta à próstata causa a um cinquentão"

Tirado daqui

2011/04/23

Adversário que erra, aplaude-se

Brrilhante como habitualmente.
FF hoje no DN:

Há tantos médicos escritores (Fialho, Torga, Namora, Lobo Antunes...) talvez por eles terem informadores grátis. As pessoas procuram-nos e dedicam-lhes tempo para contar histórias. Isto serve-me de desculpa para ter tão poucos romances publicados (na verdade, nunca escrevi nenhum), mas prometo mudar agora que dou consultas e oiço muita gente: sou leitor viciado em blogues. Infelizmente, os meus "doentes" são mais do género que procura a especialidade do psiquiatra Lobo Antunes. É assim que lhes diagnostiquei um distúrbio causado pelo confronto entre o seu evidente interesse (a leitura de dois ou três textos revela a "cor" dos autores) e a indignação por os seus adversários estarem a cometer erros. Um blogue socialista dá-se conta de que o PSD tem na lista do Porto uma lisboeta que foi da SAD do Benfica de Vale de Azevedo, e esgana-se. Um blogue laranja topa um ex-Big Brother na lista do PS/Leiria, e indigna-se. Socialistas lamentam a falta de Capucho e Pacheco Pereira nas listas sociais-democratas; e sociais-democratas devolvem com as ausências de Teixeira dos Santos e Amado. Os do PS insurgem-se contra a escolha de Nobre e os do PSD contra a de Basílio Horta... Agora já tenho muitos testemunhos para o meu romance mas temo que este fique com uma tese piegas: devemos ajudar os outros. Ora, um romance de sucesso deve ser cínico e com a tese certa: nunca se deve interromper um inimigo que está a fazer asneiras.

2011/03/18

Ontem recebi ajuda externa

Ferreira Fernandes no seu melhor:

Os japoneses são um problema para os portugueses perceberem o maior drama do mundo actual. Como é possível darmo-nos conta do que é um terramoto de grau 9, um tsunami de dez metros e explosões em três reactores nucleares, se quem os vive grita menos do que um repórter televisivo sobre umas pedradas de camionistas na rotunda do Carregado? No Japão, um pai agradece o telefone da SIC, emprestado para avisar o filho, na América, que está vivo. À volta é um mar de lama que pousou sobre a sua cidade e a calou (arrasou, diria eu, se não se confundisse com essa palavra a mesma que é usada em título nos jornais portugueses de cada vez que Pinto da Costa fala de um árbitro). Substâncias radioactivas tinham sido libertadas do incêndio do reactor 4 da central de Fukushima Dai-Ichi, os ventos arrastavam-nas para aquela cidade do japonês que falava com o telemóvel português (até em Tóquio o nível de radioactividade "aumentou consideravelmente", disse o primeiro-ministro Naoto Kan, com ar de quem anuncia o aumento de cinco cêntimos no gasóleo). E com esse cenário de fogo, de água e de ar apocalípticos, o japonês disse ao filho que nem tudo eram tristezas: "A lua tem raios prateados." Os leitores mais românticos dirão que eles são bons em haiku, poemas curtos. Mais prosaico, eu compreendi por que fazem eles toshibas e para o ano têm Sendai reconstruída.

2010/10/02

A medidazita que faltou

A mim também me teria convencido

Por Ferreira Fernandes

ELE É VOGAL de uma dessas entidades reguladoras portuguesas - insisto, não é ministro de país rico, é um vogal de entidade reguladora de país pobre - e foi de Lisboa ao Porto a uma reunião. Foi de avião, o que nem me parece um exagero, embora seja pago pelos meus impostos. Se ele tem uma função pública é bom que gaste o que é eficaz para a exercer bem: ir de avião é rápido e pode ser económico. Chegado ao Aeroporto de Sá Carneiro, o homem telefonou: "Onde está, sr. Martins?" O Martins é o motorista, saiu mais cedo de Lisboa para estar a horas em Pedras Rubras.O vogal da entidade reguladora não suporta a auto-estrada A1. O Martins foi levar o senhor doutor à reunião, esperou por ele, levou-o às compras porque a Baixa portuense é complicada, e foi depositá-lo de volta a Pedras Rubras.O Martins e o nosso carro regressaram pela auto-estrada a Lisboa. O vogal fez contas pelo relógio e concluiu que o Martins não estaria a tempo na Portela. Encolheu os ombros e regressou a casa de táxi, o que também detestava, mas há dias em que se tem de fazer sacrifícios.Na sua crónica nesta edição do DN, o meu camarada Jorge Fiel diz que o Estado tem 28 793 automóveis. Nunca perceberei por que razão os políticos não sabem apresentar medidas duras. Sócrates, ontem, ter-me-ia convencido se tivesse também anunciado que o Estado passou a ter 28 792 automóveis.

2010/09/20

O caso do chinelo encontrado morto

Esta semana, alguns sites dos jornais portugueses trouxeram o mais interessante título das últimas décadas. Esse texto veio da agência Lusa, e o Expresso e o jornal i pespegaram-no felizmente sem emenda. O título, óptimo, era: "Espinho: 'Não há indício de crime' no caso do chinelo encontrado morto', diz a PJ". Os títulos são isca e anzol e raramente vi um tão aliciante. Fala- -se muito da crise da Imprensa mas houvesse mais histórias destas e não faltariam leitores. Mesmo dando de barato a sugestão da bófia, "não há indício de crime", o caso do chinelo encontrado morto tem daqueles atractivos que antigamente faziam os ardinas apregoar e o povo comprar. Quem encontrou o chinelo morto? E, tendo-o encontrado, como lhe confirmou o passamento? Fez-se, antes, respiração boca a boca?... Enfim, ainda que oficialmente morto em toda a legalidade, o caso do chinelo morto cheirava a esturro. Infelizmente, como é próprio do costume português, tendo uma bela história entre as mãos (ou melhor, pé), os jornais decidiram destruí-la. Depois do título (óptimo, como já disse), acrescentaram um texto desmotivador. E ficámos a saber que o magnífico chinelo morto era, afinal, um infeliz chileno encontrado morto em Espinho. O que podia ter sido uma boa história não passou de uma dislexia ortográfica. Ora lobas! Perdão, bolas.
FERREIRA FERNANDES
publicado no DN a 2010-09-15

2010/01/12

Uma espécie de humor frio


Ele bem podia voltar cá por um bocadinho para se tranquilizar por não ter partido demasiado cedo. Art Buchwald (1925-2007), humorista americano, morreu vai fazer para a semana três anos. No dia seguinte a ter morrido, apareceu um vídeo dele no jornal The New York Times, onde dizia, olhando-nos nos olhos: "Olá, sou Art Buchwald. Acabo de morrer." Ele andava há meses com uma doença terminal e quis partir assim, soberbo e com uma gargalhada. Acabara de publicar um livro intitulado, apesar dos seus 81 anos, Too Soon to Say Goodbye (Demasiado Cedo para Dizer Adeus). Morreu - escreveu - com um ressentimento: "Lamento não vir a conhecer esse tal aquecimento global." Em Lisboa, na semana em que ele morreu, a máxima foi de 16º. No domingo passado, na mesma Lisboa, o termómetro não passou dos 5º. Teria sido simpático a nossa Câmara convidar Buchwald e teria sido bom ele poder ter-nos visitado. De sobretudo e cachecol. Voltaria lá para o assento etéreo, para reatar a conversa com Mark Twain, outro humorista americano (é, os humoristas, no Céu, não encontram virgens, só colegas): "Sabes, afinal não perdi nada. Aquilo aquece coisa nenhuma", diria Buchwald. Talvez Twain lhe respondesse: "As notícias da morte do frio são manifestamente exageradas."

Hoje no DN